sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Mais lenha, por favor...

Munida de archotes, a população inteira do povoado sai em busca daquela "vadia". Muitos ali nem sabem ao certo o que ela fez mas se estão todos unidos em busca da "vadia", é sinal que ela merece ser buscada. Sua casa, abandonada às pressas, é queimada, seus pertences espalhados, sua vida com a qual ninguém antes se preocupou, caiu em domínio público.

Acuada atrás de pilhas de feno nas cercanias do povoado, a criatura é pega, arrastada pela turba em desvario e levada ao centro do povoado. Decidem às pressas qual a punição cabível, aquela que irá "lavar" a "alma" dos presentes, justificando sua captura altas horas da noite. Será despida, molestada sexualmente aos olhos de todos, depois, arrancam-lhe as unhas, esbofeteiam-na, aplicam-lhe paus e pedras, cuspes e ponta pés. Um a um, os acusadores revesam-se na aplicação de penas cada vez mais grotescas até que, depois do último desmaio, em que a criatura não mais responde aos baldes de água, decidem por atear-lhe fogo. É então amarrada em uma estaca, cercada por lenha, algumas touceiras de mato seco.

O fogo então, lentamente, incumbe-se da tarefa de extinguir a vida e os sinais de existência de alguém odiado pela população em peso do povoado. Alguns continuam gritando, na ânsia de verem o horror naquele rosto prestes a ser consumido. Os olhos da "vadia" então abrem-se e, cercada pelo fogo, a criatura põe-se a gritar a todos pulmões, para satisfação da massa popular ali reunida. A "justiça" foi feita. O ribombar distante acusa chuva forte a caminho... um a um, os populares deixam a cena para trás de si. Estão prontos para encarar a vida na manhã seguinte, como se nada tivesse acontecido na noite anterior. Seus "pecados" estão perdoados. A vítima da expiação os levou consigo...

Uma mulher é flagrada batendo em seu cãozinho indefeso. Nesses tempos em que todos podem ter à disposição algum dispositivo capaz de captar imagens em vídeo, alguém no andar de cima de uma casa começa a filmar a sequência de golpes covardes aplicados no cãozinho no quintal que, de tanto apanhar, acaba incapaz inclusive de ganir de dor. Parece uma trouxinha de pelos sendo arremessada contra a parede, o chão, até que não satisfeita, em outro momento, a algoz coloca um balde vazio virado por cima do animal. O video acaba. Quem fez a filmagem, possivelmente a empregada da agressora, decide não levar as evidências diretamente à polícia, sob o risco de não ser sequer levada a sério. Decide por hospedá-lo no Youtube.

Munida de conexão com a internet, a população em peso de redes sociais sai em busca de dados pessoais da agressora do cãozinho. Querem-na viva, de preferência. Numa sequência de milhares de respostas ao video, milhares de pessoas depõem contra a atitude covarde da infeliz que golpeia seu cãozinho na frente de sua filha de 3 anos. Mas a indignação não acaba aí... e, um a um, vão expressando sem pudor o que seriam capazes de fazer com aquela mulher capaz de matar um cãozinho na "porrada". Um a quer empalada viva, o outro faria com ela o mesmo que ela fez com o cãozinho, outros descrevem como a fariam sofrer tendo seus orifícios anal e vaginal penetrados por cabos de vassoura, pedaços de bambu, areia, cavaco de metal... uns falam em extrair-lhe as vísceras com as próprias mãos, outros em arrancarem os olhos, os cabelos, as unhas... em queimarem seu corpo com ela ainda viva. O pior é saber que não se privariam de fazer essas coisas caso lhes fosse permitido. E assim, vingariam a possível morte de um cãozinho com o suplício da agressora, até que inclusive suas cinzas fossem carregadas pelo vento. E todos, "salvos" de seus próprios demônios, voltassem à rotina de suas vidas, depois de extravasarem-nos em sua vítima expiatória da vez...

Possivelmente, uns 1000 anos nos separam do bode expiatório descrito na abertura deste texto. E, no entanto, basta que a indignação contra algum feito de outro alguém venha à tona, lá está o bode da vez. Neste mesmo momento em que dispomos de tantos recursos, em que tanto lutamos contra nossos instintos mais básicos, é assustador saber que ainda somos os mesmos... Para nossa sorte, dispomos também de leis que nos preservam de nossa natureza agressiva, impiedosa, punitiva, como uma bênção. Em compensação, os demônios continuam à espreita dentro de cada um de nós. E onde a aplicação de leis é falha, lá estamos nós fazendo justiça com as próprias mãos, "lavando" nossas "almas" de todo "pecado".

O fato é que é assustador pensar que muitos dos mesmos que expressaram tamanho repúdio aos maus tratos contra o animal teriam coragem de aplicar tantas e tamanhas punições contra a agressora do mesmo animal. Em o nome da "justiça"...

Depois de disporem dos dados da agressora do cãozinho e espalhá-los por toda parte das redes sociais, mesmo sem a possibilidade de supliciar a agressora do animal, a "justiça" foi feita. E... "[...]um a um, os populares deixam a cena para trás de si. Estão prontos para encarar a vida na manhã seguinte, como se nada tivesse acontecido na noite anterior. Seus "pecados" estão perdoados. A vítima da expiação os levou consigo...". Fecha aspas.

8 comentários:

  1. No vídeo, não há informação suficiente para dizer que o animal morreu ou iria morrer. O animal foi jogado, mas não foi ferozmente jogado. O animal estava molhado e com medo, mas não havia sinais de ferimentos físicos.

    O que eu vi é que há mais ódio do que informação.
    Mais uma vez, eu vejo a população com sede de sangue.

    ResponderExcluir
  2. "O fato é que é assustador pensar que muitos dos mesmos que expressaram tamanho repúdio aos maus tratos contra o animal teriam coragem de aplicar tantas e tamanhas punições contra a agressora do mesmo animal. Em o nome da 'justiça'".

    Perfeito. Existe justiça contra maus tratos à animais (é crime previsto no Artigo 32 da Lei Federal dos Crimes Ambientais 9.605/98). Denunciar e as autoridades tomarem atitude seria a justiça plena. Pronto e ponto.

    ResponderExcluir
  3. Isto me fez recordar um dito de alguém que não recordo quem, que dizia:

    ``Tecnologicamente, somos Deuses... mentalmente, continuamos animais irracionais piores que macacos.´´

    ResponderExcluir
  4. acho discutível quando vc mistura vítima de expiação com pecados perdoados, achei que vc empregou de maneira inapropriada. Até onde me lembro, a vítima de expiação era um animal que assumia este papel, para perdoar os pecados do povo. Era feita dentro de um ritual religioso e não apenas social. Quando um humano era apedrejado, ou passava por uma situação de humilhação social, não era pra pagar ou expiar pecados e sim pra se praticar a justiça, que se considerava na época.
    Entendo que vc queira defender o direito à vida de toda criatura, e que seja contra a onda de violência que se espalhou pela internet. Eu também sou. Mas não concordo de que esta mulher seja bode expiatório, ela não é vítima. Acho que toda questão é bem outra. Acho que as pessoas mais sóbrias se indignaram contra esta situação e estão manifestando-se nas redes sociais. Não creio que devamos nos silenciar, contra nenhum crime praticado, nem contra animal, nem contra a natureza, nem contra um ser humano indefeso e excluído socialmente.
    Por favor, não é relativa a violência contra qualquer criatura animal, todas merecem respeito. O homem não tem mais direito do que elas à vida.

    ResponderExcluir
  5. Letícia, as pessoas estão compartilhando informações pessoais da mulher. Excitando o ódio. Eu não entendi que a autora do texto esteja dizendo que ela seja inocente. Nem que não há nenhum problema na morte do cão.

    Justiça com as próprias mãos, ainda mais quando há uma multidão envolvida, não é bom. A polícia já está investigando o caso, e aplicarão a lei de acordo. É normal ficarmos indignados, e chamarmos atenção para as autoridades competentes. Mas não invocar um mutirão de linchamento.

    ResponderExcluir
  6. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  7. A autora comparou a infeliz mulher com bode expiatório e vítima de expiação de pecados (aliás de forma incorreta).Está bem claro no texto pra mim.
    Não concordo com este ponto de vista da autora, se ela posta isso num blog, é normal que hajam opiniões a favor e outras contras, estou manifestando minha posição apenas,dentro da liberdade que supostamente se deve ter quando estamos na rede.
    Em relação ao linchamento etc já me posicionei tb.
    Não sei o quanto as informações de sites podem ser seguras, mas li que o caso já está há cerca de um mês sendo investigado....então imagino que este video foi posto no youtube depois disso...agora porque o sujeito que filmou não denunciou antes etc são outros 500...o fato é que pelo menos só agora a opinião pública virtual tomou conhecimento do fato.

    ResponderExcluir
  8. Letícia... A autora comparou a infeliz mulher com o bode expiatório de que a humanidade sempre fez uso quando se tratou de expurgar o que pensa, sente e que não assume. Despeja então em alguém ou algo a ser eliminado, como parte do processo de "purificação". Mesmo sem saber ao certo do que se tratava, mesmo sem entender o que houve, o fato é que uma mulher maltratou, torturou e matou seu cãozinho. O julgamento desse ato é o que se tem visto. O resultado disso foi minha tentativa de entender o processo todo.

    O fato é que com a denúncia, o máximo que aconteceria é a autora do crime contra o animal ter que pagar uma multa. Não chegaria às vias de fato de ser presa. Já com a repercussão do video no youtube, pelo fato do autor do mesmo não se tratar de uma empregada nem de um filho mais velho mas de um vizinho omisso ao que se passava no quintal da casa da vizinha, agora, além da criatura que cometeu o crime contra o animal, ainda temos essa criatura que, valendo-se de uma câmera, ofertou um bode para a população. O processo todo é deprimente... e o resultado disso é a minha indignação. Não só contra o fato de uma mulher ter agido da forma como agiu contra seu cãozinho. Mas também contra essa onda de protestos da forma como se viu e tem visto.

    ResponderExcluir